Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

Batalha de Aljubarrota- 2ª parte - 14 de Agosto de 1385

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...........Continuação

 

 

 

 

 

O significado único da Batalha de Aljubarrota:
 
Como refere João Gouveia Monteiro, a batalha ocorrida no planalto de S. Jorge no dia 14 de Agosto de 1385 constituiu um dos acontecimentos mais decisivos da História de Portugal. Sem ela, o pequeno reino português teria, muito provavelmente, sido absorvido para sempre pelo seu poderoso vizinho castelhano. Sem o seu contributo, o orgulho que temos numa história largamente centenária, configurando o estado português como uma das mais vetustas e homogéneas criações políticas do espaço europeu, não seria hoje possível. Ao vencer o seu rival castelhano naquela tarde de 14 de Agosto, o recém-eleito D. João I não só abriu as portas à Segunda Dinastia portuguesa, como também possibilitou a preparação daquela que seria a época mais brilhante da história nacional - a época dos Descobrimentos. Aljubarrota deu, portanto, directa e indirectamente, um novo contorno à história de Portugal e do próprio Mundo, cujo extraordinário significado repercutirá para sempre pelos séculos fora.
 
Mas, mesmo vista à sua escala medieva, a Batalha de Aljubarrota, como veremos seguidamente, não pode deixar de ser considerada uma ocorrência da maior importância política, militar e diplomática.
 
Assim e do ponto de vista político, a batalha decidiu - como raras vezes acontecia com as pelejas medievais - a disputa política que dividia a Península e o próprio reino de Portugal, desde Outubro de 1383. A partir de Aljubarrota, e apesar de, durante muito tempo D. Juan I não ter perdido a ideia de regressar a Portugal para se vingar, não mais os castelhanos voltaram a ser capazes de reunir um conjunto de tropas suficiente para ameaçar a integridade territorial do pequeno reino lusitano. Na sequência de uma inteligente estratégia de pressão desenvolvida ao longo das duas décadas seguintes, Portugal acabaria por forçar a paz, assinada em Ayllón (Segóvia) a 31 de Outubro de 1411. O destino lusitano pôde, então, assumir outros contornos, esculpidos, primeiro, nas praças marroquinas do Norte de África, e, mais tarde, no azul dos oceanos que conduziram à Índia e ao Brasil.
 
Após a vitória nos campos de Aljubarrota, o pequeno partido que à, morte de D. Fernando, se agrupara em redor do Mestre de Avis, pôde, enfim, respirar fundo: logo depois da batalha, a poderosa Santarém caiu nas mãos do monarca eleito em Coimbra, seguindo-se-lhe Leiria, Óbidos, Alenquer, Vila Viçosa e, a curto prazo, todas as outras bolsas de resistência que - sobretudo no Alto Minho – mantinham a voz por D. Beatriz.
 
Do ponto de vista estritamente militar, a batalha de Aljubarrota configurou um dos marcos mais representativos da evolução dos sistemas e dispositivos tácticos utilizados na guerra praticada no Ocidente europeu nos finais da Idade Média. Desde o triunfo da “Cavalaria Pesada”, nos meados do Séc. XI, e até ao primeiro quartel do Séc. XIV, o desfecho da esmagadora maioria das batalhas campais europeias fora decidido pela capacidade ofensiva dos combatentes montados. Mas na primeira metade do Séc. XIV um novo modelo de guerra começou a impor-se. Em várias zonas da Europa - Países Baixos, Ilhas Britânicas, Suíça – ensaiaram-se novas tácticas assentes predominantemente em corpos de infantaria, que vieram demonstrar a capacidade das forças apeadas derrotarem contingentes de cavalaria, mesmo quando em situação numérica desfavorável. Estas novidades chegaram ao território francês em meados da centúria, no contexto da Guerra dos Cem Anos. Na Batalha de Crécy (travada a 26 de Agosto de 1346) e, dez anos mais tarde, em Poitiers (19 de Setembro de 1356), os exércitos ingleses envolvidos na Guerra dos Cem Anos puderam, enfim, pôr em prática, com resultados devastadores, um novo modelo táctico que alteraria completamente o equilíbrio militar tradicional. Esse novo sistema assentava na combinação de corpos de homens de armas desmontados, armados com lanças, com corpos de atiradores, armados com arco ou besta posicionados nas alas (geralmente em posição levemente avançada), uns e outros defendidos por uma forte retaguarda de reserva, na maioria dos casos montada e chefiada pelo próprio rei.
 
O segredo completava-se com uma atitude estratégica ofensiva (tomar a dianteira e escolher o terreno, provocar o adversário, precipitar o combate), sabiamente combinada com uma postura táctica eminente defensiva (procurar o abrigo de obstáculos naturais, associar-lhes obstáculos artificiais por via de escavações e de empilhamento de materiais, aguardar a investida inimiga).
 
Durante décadas, o novo sistema táctico inventado pelos ingleses massacrou a numérica e militarmente muito mais poderosa cavalaria francesa, incapaz de se adaptar à nova lógica militar. Mas a experiência não decorreu apenas nos palcos da Guerra dos Cem Anos. Com efeito, em 1367, em Nájera (Navarra), e, sobretudo, em 1385, em Aljubarrota, o sistema foi também posto em prática e aperfeiçoado, com os resultados devastadores que se conhecem. O combate de S. Jorge, onde - convém não esquecê-lo - lutaram muitas centenas de homens de armas ingleses e franceses, corresponde, assim, à entrada na fase da maturidade de um novo sistema militar, ao mesmo tempo que constituiu um dos mais emblemáticos exemplos europeus da sua genialidade.
 
Finalmente e do ponto de vista diplomático, a Batalha de Aljubarrota privilegiou definitivamente a aliança de Portugal com Inglaterra, que se materializou no ano seguinte, em 1386, através do Tratado de Windsor. Esta aliança diplomática com Inglaterra haveria de chegar até aos nossos dias. Por outro lado, definidas as fronteiras terrestres com Castela, e estabelecido com Castela o Acordo de Paz em 1411, ficou perfeitamente entendido em Portugal, e mesmo em Castela, que a identidade do povo português estaria definitivamente associada á independência do Reino de Portugal.
 
Os principais momentos da Batalha:
 
No dia 14 de Agosto, logo pela manhã, o exército de D. João I ocupou uma posição fortíssima no terreno, escolhida na véspera por Nuno Álvares Pereira. É a chamada “Primeira Posição”, no extremo Norte do planalto de S. Jorge, controlando a estrada medieval (herdeira da via romana). A vanguarda do exército castelhano, que partira dos arrabaldes de Leiria e seguia por essa mesma via, começou a avistar o local ao final da manhã. Analisada a situação e ponderado o risco, decidiram evitar o choque com os portugueses, uma vez que isso implicaria a subida de um terreno em condições extremamente desfavoráveis. Preferiram tornear a posição portuguesa pelo lado do mar, utilizando a rede de caminhos secundários, para retomarem a via principal mais a sul, na esplanada do Chão da Feira. O exército português constituído por aproximadamente 8.000 homens de armas, moveu-se, então, uns dois quilómetros para Sul e inverteu a sua posição de batalha para ficar voltado para Sul, encarando de frente o inimigo.
 
Confiante na sua superioridade numérica, a hoste castelhana, admitia agora combater. Enquanto isso, o exército português tirava o máximo partido da sua nova posição no planalto de S. Jorge. A frente era bastante estreita e achava-se bordejada, a nascente e a poente, por duas linhas de água, que coincidiam com outros tantos barrancos. A espera permitira também efectuar, ou completar, uma série de fortificações acessórias, destinadas a reforçar a protecção dos flancos e a criar dificuldades ao avanço castelhano. Assim, rasgaram-se fossos e cavaram-se covas-de-lobo, que escavações arqueológicas (de Afonso do Paço, nos anos 60 do Séc. XX, e outras mais recentes) colocaram a descoberto. Cortaram-se e empilharam-se troncos de árvores, formando-se com eles "abatises". Depois, uma grande parte deste dispositivo de defesa foi disfarçada com ervas e ramagens.
 
A hoste portuguesa desenhou, então, no terreno, uma espécie de quadrado. A vanguarda, comandada por Nuno Álvares Pereira, comportava homens desmontados armados com lanças.
 
Lateralmente, e avançando em relação a esta linha, duas alas formadas por corpos de arqueiros e besteiros. Duzentos ou trezentos metros atrás da vanguarda, estava a retaguarda ou reserva, também ela apeada e comandada por D. João I. Ao fundo de tudo ficou estacionada a carriagem, ou trem de apoio. Os flancos foram forrados com tropas de composição mista.
 
A vanguarda castelhana, formada a uns 700 metros a Sul, incluía um grande número de "lanças" dispostas em várias fileiras. Em cada uma das alas havia centenas de cavaleiros. A retaguarda, ainda incompleta quando se iniciou o combate, reunia alguns milhares de "homens de armas", distribuídos por várias linhas.
 
Depois de estacionado na esplanada de Chão da Feira, o monarca castelhano reuniu o seu conselho de guerra, tendo sido defendidas duas grandes posições:
 
- Aqueles que defenderam que não se devia atacar, argumentando que já era tarde, as tropas estavam cansadas, não tinham comido e o inimigo encontrava-se numa boa posição. Dentro desta opção, discutem-se duas alternativas possíveis: não tomar qualquer atitude, ordenando as forças e aguardando, o que levaria os portugueses a ter de tomar a iniciativa, saindo da sua posição e perdendo a vantagem; ou ignorar o exército português e continuar a progressão para Lisboa, que era o objectivo da expedição.
 
- Aquele que defenderam que se devia atacar, resolvendo já o problema, sublinhando que seria uma grande desonra mostrar medo de tão pequeno exército. Em defesa desta opção destaca-se o nobre português D. João Afonso Telo.
 
Por decisão (ou como consequência de alguma indecisão que gerou desobediência), concretizou-se a opção de atacar. Seguiram-se diversos acontecimentos, dos quais podemos destacar os seguintes:
 
1.º Das 17:45 até às 18:15 - o primeiro assalto:
 
Enquanto D. Juan I reunia e ouvia o seu conselho de guerra, 16 trons foram instalados à frente da vanguarda do exército castelhano, a cerca de 800 metros da vanguarda do exército português. 100 metros atrás, ou seja, a 900 metros da vanguarda do exército português, estava a primeira linha da vanguarda castelhana, composta na sua grande maioria por cavaleiros franceses. Cerca de 600 metros atrás da primeira linha, estava D. Juan I de Castela, com a sua escolta. Nessa segunda linha começavam-se a estabelecer, à medida que chegavam, o resto das lanças montadas, dos peões e dos besteiros. Um pouco atrás, tinha-se montado a tenda real e algumas outras, onde se colocaram diversas bagagens.
 
Quando se tomou evidente que um conjunto de cavaleiros ia iniciar o ataque às posições portuguesas, os referidos trons dispararam as suas cargas (pelouros de pedra), dando início à Batalha de Aljubarrota. Um desses tiros atingiu a ala direita portuguesa, matando dois escudeiros portugueses e um arqueiro inglês. Estes tiros causaram grande consternação na hoste portuguesa, uma vez que a grande maioria dos homens de armas portugueses desconhecia esta arma. Um escudeiro português disse nesse momento: "não tenhais medo, pois eu vi os dois homens que morreram à oito dias entrarem numa igreja e matarem o clérigo que aí dizia missa.
 
Isto significa que Deus, que nos vai dar hoje a vitória, não quer que estes dois homens nela participem, ou beneficiem da sua honra!" E todos os que isto ouviram, redobraram o seu propósito de lutar contra os seus inimigos.
 
O Condestável português havia entretanto desmontado e, rodeado pela sua guarda pessoal de 50 escudeiros, encontrava-se junto à sua bandeira, instalada numa pequena colina, no local onde hoje se encontra a Ermida de São Jorge. A vanguarda dispunha de 600 lanças dispostas possivelmente em três fileiras, ao longo de 180 metros. A ala esquerda, a Ala dos Namorados, mais próxima do Condestável, era comandada por Mem Rodrigues de Vasconcelos e por seu irmão Rui Mendes. Esta ala, onde sobressaía uma grande bandeira verde, dispunha de aproximadamente 400 besteiros, 200 lanças e 650 homens a pé. A ala direita, que dispunha de aproximadamente 200 arqueiros ingleses, 100 besteiros, 200 lanças e 750 homens a pé, era comandada por Antão Vasques. Sobre ela pairava a bandeira de São Jorge. Os dois lados da sua saliência ocupavam 260 metros.
 
Poucos minutos depois, pelas 17:45 horas, a vanguarda do Rei de Castela, constituída por cerca de 2.000 cavaleiros, na sua quase totalidade tropas auxiliares francesas, iniciou o ataque.
 
Avançando a galope, estes cavaleiros passaram a estar, a partir dos 400 metros, debaixo do alcance dos virotões dos besteiros portugueses. A menos de 300 metros passaram a receber igualmente as setas disparadas pelos arqueiros ingleses, armados com os temíveis long bows (arcos longos). Atingidos pelos virotões primeiro e depois também pelas flechas, cavalos e cavaleiros começam a cair. À medida que a zona central do planalto foi ficando mais estreita, foram-se apertando uns contra os outros. As baixas começaram a multiplicar-se e a confusão foi alastrando. Os cavalos e cavaleiros caídos por terra e feridos arrastaram consigo outros, que caíram igualmente. Devido ao peso das suas armaduras e às feridas sofridas, os cavaleiros tinham dificuldade em se levantar. A menos de 250 metros da vanguarda portuguesa, os cavalos começaram a cair nas covas-do-lobo e nos fossos criados pelos portugueses. Os cavaleiros que mesmo assim conseguem chegar a menos de 100 metros da vanguarda portuguesa, saltando com os seus cavalos os fossos e as covas-do-lobo, estavam sujeitos a um crescente aperto, devido à existência dos abatises que estreitavam o acesso à vanguarda portuguesa. Com falta de espaço, sujeitos aos contínuos disparos de virotões e flechas e às quedas dos seus cavalos, muitos cavaleiros desmontaram e procuram continuar a combater a pé. Contudo, além de não conseguirem romper a vanguarda portuguesa, foram sujeitos a um forte ataque dos homens de armas portugueses da vanguarda, com lanças e armas de choque.
 
Combatendo isoladamente do resto do exército castelhano, que ainda não tinha avançado, os cavaleiros franceses sobreviventes lutaram desesperadamente, mas acabaram por ter de se render aos portugueses. Foram então aprisionados cerca de 1.000 cavaleiros franceses, que foram levados para trás da vanguarda portuguesa. Alguns começaram a negociar o resgate. A maioria aguardava a chegada do exército de Castela, confiantes que os viriam livrar do cativeiro.
 
2.º Das 18:15 até às 19:30 -o segundo assalto:
 
Observando, à distância, o desenrolar dos acontecimentos e tendo recebido os relatos de alguns cavaleiros franceses que tinham conseguido regressar para junto da posição castelhana, D. Juan I toma, pouco depois das 18:00 horas, conhecimento da terrível notícia. Alguns nobres castelhanos aconselham o Rei de Castela: "Meu Senhor, o sol já está posto, pelo que não devemos continuar aquela hora o combate; devemos antes esperar pelo amanhecer, e reagrupar até lá as nossas tropas, que não comeram e estão cansadas". Contudo, D. Juan I respondeu: "Quem tal conselho dá não preza a minha honra, pois nunca poderei deixar presos em mãos inimigas cavaleiros do meu exército".
 
Tocaram então as trombetas e os tambores muito fortemente, e ouviram-se vozes que gritavam “Por Santiago! Por Santiago!” e “A eles! A eles!”. O exército castelhano iniciou pelas 18:15 horas o avanço com a sua vanguarda, alas, e retaguarda. Na primeira linha vinham cerca de 3.000 cavaleiros, na sua maioria castelhanos mas também vários nobres portugueses, entre os quais o Conde D. João Afonso de Teles, irmão de D. Leonor Teles. Estes cavaleiros avançavam organizados em três filas, cada uma com 1.000 cavaleiros. A maior parte destes cavaleiros estavam munidos de longas lanças. Numa segunda linha, algumas centenas de metros atrás, vinham cerca de 4.000 ginetes, para além de cerca de 500 besteiros castelhanos e diversos homens de armas. Com o exército castelhano avançou a bandeira do monarca castelhano, onde se viam os brasões de Castela e de Portugal, e muitas outras bandeiras e estandartes da nobreza castelhana.
 
Embora no início do avanço as linhas castelhanas estivessem alinhadas, depressa começaram a ter dificuldade em manter as filas paralelas, devido à configuração do planalto. As duas alas viram-se impedidas de progredir pelos flancos. A vanguarda castelhana continuou o seu avanço, e as alas, comprimindo-se, procuraram segui-la. O conjunto tornou-se primeiro convexo, e depois informe e compacto. Quando ultrapassou a linha dos 400 metros de distância das forças portuguesas, a vanguarda castelhana passou a estar também sob o efeito dos virotões dos besteiros portugueses, provocando a queda de cavalos e cavaleiros e causando mortos e feridos. A partir de então, em face dos obstáculos artificiais que se avistavam e da falta de espaço para os cavalos poderem avançar livremente, a maioria dos cavaleiros castelhanos desmontou e tentou percorrer a pé as escassas centenas de metros que faltavam para atingir o exército português. As suas compridas lanças, que se destinavam a combate montado, seriam quebradas para se adaptarem à luta corpo a corpo que se avizinhava. Contudo, nem todos os cavaleiros castelhanos desmontaram e algumas dezenas conseguiram chegar à zona da vanguarda portuguesa.
 
A partir do momento em que sentem que estão debaixo dos virotões e das flechas, tanto cavaleiros como homens a pé procuram acelerar o passo. Devido à grande concentração de homens, ao progressivo estreitamento da frente de batalha e aos obstáculos artificiais existentes (covas-do-lobo e fossos) que lhes provocavam continuamente quedas, os atacantes vão-se acotovelando, tropeçando em corpos de homens estendidos no chão e vêm-se cada vez mais apertados. Devido a este estreitamento no espaço disponível para o avanço, a retaguarda castelhana estava já encostada à vanguarda castelhana, de tal forma que constituíam apenas um conjunto único de homens. Os cerca de 400 besteiros castelhanos que acompanhavam os homens de armas da vanguarda, viram-se incapazes de utilizar eficazmente as bestas, por não terem campo de tiro livre. Entretanto os homens de armas iam sendo atingidos pelas flechas e virotões dos atiradores ingleses e portugueses.
 
Todas estas circunstâncias fizeram com que os últimos 300 metros, antes de ser atingida a vanguarda portuguesa, fossem percorridos com um grau crescente de dificuldades. Não podendo atacar pelos flancos, dadas as duas linhas de água que torneavam o planalto, e não podendo vencer os obstáculos artificiais que se deparavam no terreno (abatises, fossos e covasde-lobo), os castelhanos foram convergindo para o centro do planalto, convertendo-se numa massa confusa, amontoada e disforme. Perderam velocidade de progressão no terreno e o número de baixas foi aumentando. A compressão foi de tal ordem que muitos castelhanos mortos não apresentavam qualquer ferimento, tendo morrido esmagados ou sufocados.
 
Perante este avanço, os portugueses tocaram as suas trombetas, e a vanguarda avançou em boa ordem, passo a passo, com as lanças debaixo do braço, apontadas a direito, numa frente de aproximadamente 250 metros de largura.
 
Apesar da investida castelhana ter abrandado a velocidade, de ter sido encaminhada para um estreito corredor em frente do exército português, e do elevado número de baixas sofridas durante o processo de aproximação, cerca de 2.000 homens castelhanos chegou ainda com alguma força à vanguarda portuguesa, mais junto à ala esquerda portuguesa, perto da zona onde se encontrava Nuno Álvares Pereira e a sua bandeira. Deu-se então o choque com a vanguarda portuguesa, onde, num primeiro momento, cada parte procurou crivar as suas lanças nos seus inimigos. Simultaneamente, os besteiros portugueses e arqueiros ingleses continuavam a flagelar os assaltantes castelhanos. Nos intervalos dos seus lançamentos, os peões portugueses, situados atrás dos besteiros e arqueiros, arremessavam um elevado número de pedras e lanças. Nesse momento, e neste segundo assalto, já os assaltantes castelhanos tinham sofrido cerca de 3.000 feridos e mortos.
 
Após os momentos iniciais do choque, as lanças de ambas as partes tinham sido crivadas ou lançadas, deixando portanto de poder ser usadas. Os combatentes de ambas as partes passaram então a usar outras armas, como espadas, punhais ou machados. O combate transformou-se numa violenta luta corpo a corpo, que se prolongou por vários minutos. No meio de uma grande gritaria de parte a parte, Nuno Álvares Pereira clamava: "Ah, portugueses, lutai por vosso rei e por vossa terra!".
 
Na sequência desta luta brutal, cujo barulho podia ser ouvido a longa distância, a vanguarda portuguesa acabou por ceder, abrindo a passagem a cerca de 1.500 homens de armas castelhanos. Outros castelhanos ficaram a enfrentar a parte não destroçada da vanguarda portuguesa. A coluna de assaltantes que conseguiu forçar a linha de vanguarda continuou a avançar de forma desordenada, o que aumentou o atropelo. A ruptura da vanguarda portuguesa deu-se junto à ala esquerda, ou seja, a Ala dos Namorados, razão pela qual houve aí maior número de baixas portuguesas. Mem Rodrigues de Vasconcelos e seu irmão Rui Mendes, que comandavam esta ala, foram alguns dos que ficaram feridos.
 
Perante a ruptura da vanguarda portuguesa, as duas alas laterais recuaram, colocando-se entre a vanguarda e a retaguarda portuguesa. Com efeito, não havendo inimigos que estivessem a atacar as alas, os besteiros portugueses e os arqueiros ingleses puderam recuar e virar-se para o interior do "quadrado" português, alvejando os assaltantes castelhanos que aí haviam penetrado. O mesmo faziam os homens de armas portugueses aí situados, que atacavam os assaltantes com as suas lanças.
 
Contudo, este movimento das alas portuguesas não conseguiu impedir o avanço dos castelhanos. A retaguarda, onde se encontrava D. João I, obedecendo à ordem do monarca, avançou. O rei gritou: "Avante, senhores, avante! Por São Jorge e Portugal de que eu sou Rei!".
 
Correndo para os assaltantes, a retaguarda portuguesa provocou o choque a cerca de 150
metros a norte da vanguarda portuguesa, a que se seguiu um duro combate. Os portugueses utilizaram neste combate as suas espadas, punhais e fachas. Os homens de armas portugueses da retaguarda tinham, poucos metros atrás de si, os seus pagens e tratadores com os seus cavalos à mão. Quando estes homens de armas portugueses avançaram em direcção ao inimigo, foram seguidos por eles.
 
Após este choque, os castelhanos deixaram de avançar. Com este movimento, que assume uma importância decisiva na batalha, os assaltantes castelhanos ficaram pressionados por vários lados pelos portugueses. Com efeito, sendo atacados violentamente por três lados, os homens de armas castelhanos sofreram significativas baixas. A norte enfrentavam a retaguarda portuguesa, com cerca de 2.000 homens de armas. A este e oeste as alas portuguesas, com cerca de 1.200 peões, besteiros e arqueiros. E a sul, cerca de 350 lanças, que haviam sobrevivido ao rompimento castelhano. É nesta fase que se dá o combate a pé entre D. João I e um cavaleiro castelhano, D. Álvaro Gonçalves de Sandoval. O Rei de Portugal, ao procurar desferir um golpe, foi derrubado e ficou privado da sua arma, uma facha. Surgiu então um cavaleiro português, D. Martim Gonçalves de Macedo que, colocando-se entre o Rei e o cavaleiro castelhano, conseguiu desferir um golpe e matar o cavaleiro castelhano, salvando a vida do rei de Portugal.
 
Enquanto alguns castelhanos continuavam a combater, outros, feridos e cientes do desfecho que se avizinhava, começaram a procurar fugir. A bandeira castelhana foi derrubada, o que aumentou a desorientação entre as forças de D. Juan I. Alguns fogem em direcção ao arraial castelhano e este movimento foi observado por alguns pagens portugueses, que exclamaram: "Já fogem, já fogem!". Este grito contribuiu para que os restantes sobreviventes castelhanos, cerca de 500, fugissem também.
 
Os portugueses conseguiram assim em primeiro lugar parar o avanço castelhano, e posteriormente, à custa de luta corpo a corpo, empurrar progressivamente os castelhanos para sul, e depois, mesmo para fora da sua vanguarda. Este movimento fez com que muitos, recuando a lutar, caíssem na ribeira aí existente, e nos fossos construídos pelos portugueses.
 
Isto sucedeu também com os cavaleiros castelhanos que continuaram a avançar montados, e que saltaram com os seus cavalos um fosso que existia em frente da vanguarda portuguesa.
 
Todos foram derrubados dos cavalos, e nenhum sobreviveu. Neste aspecto, repetiu-se o que havia já sucedido com os cavaleiros franceses aquando do primeiro assalto.
 
Neste momento as alas portuguesas recolocaram-se na sua posição inicial, e ainda tinham alguns projécteis por utilizar. A vanguarda portuguesa, embora desfalcada, tinha conseguido restabelecer a sua frente. Mas a segunda linha castelhana, em organização ao longe, constituía uma ameaça.
 
Generalizou-se então a fuga dos assaltantes castelhanos em direcção ao acampamento castelhano. A segunda linha castelhana, onde estava o rei de Castela, começou a formar para iniciar o ataque à posição portuguesa. Contudo, ao deparar com um imenso pelotão de castelhanos que retrocediam, desmoralizou e acabou por não iniciar o seu ataque.
 
Nesta altura, pelas 18:45 horas, perante o desbarato dos castelhanos, os portugueses tomaram a iniciativa. Procurando explorar o sucesso, passaram à ofensiva, gritando, e perseguindo a cavalo os adversários que tinham sobrevivido e que procuravam fugir. Este movimento de contra-ataque a cavalo, prolongou-se até à tenda Real de D. Juan de Castela, e em direcção a Leiria até à Canoeira. Foi na Canoeira que caiu em mãos portuguesas o altar de campo de rei de Castela.
 
Por esta altura, muitos cavaleiros castelhanos procuravam fugir, cavalgando para longe do campo de batalha. Uns largavam as suas armas para mais facilmente poderem fugir. Outros viravam as suas roupas do avesso, de forma a não poderem ser reconhecidos como castelhanos. Muitos, com medo, saíam das estradas e metiam-se no mato, acabando por se perder.
 
3.º Das 19:00 até às 19:45 -o assalto á carriagem portuguesa:
 
A ala esquerda castelhana, chefiada por Don Gonçalo Nunes de Gusmão, composta por aproximadamente 700 cavaleiros, havia desde o início deste segundo assalto avançado pela zona do Tojal, contornando a ala esquerda do exército português. Vendo que o ataque frontal ao exército português não era possível, em face do Vale da Mata que tinha diante de si e que torneava a ala esquerda portuguesa, optou por avançar mais pela direita, longe do exército português. Mais a norte, tendo já contornado completamente o exército português, subiu ao planalto de São Jorge, inflectiu para sul, e atacou a carriagem portuguesa. Este ataque verificou-se aproximadamente no momento em que se iniciava o contra ataque português à tenda real de Castela.
 
Don Gonçalo Nunes de Gusmão contava que o assalto do exército castelhano à vanguarda portuguesa durasse bastante mais tempo de que sucedeu, pelo que, ao atacar a carriagem portuguesa, submeteria o exército português a dois ataques simultâneos, um na vanguarda, outro na retaguarda. Contudo, o seu ataque ocorreu quando o ataque castelhano à vanguarda portuguesa já havia terminado, cerca das 19:00 horas, e quando muitos castelhanos já procuravam fugir. Não deixou contudo de ser um ataque violento, que se traduziu em várias investidas na zona da carriagem. A carriagem portuguesa era defendida por homens a pé e besteiros, que entrincheirados por detrás das bagagens, de carroças derrubadas e de outros obstáculos artificiais que conseguiram utilizar, atiravam pedras, lanças e disparavam virotões.
 
Sabendo que o ataque principal castelhano já tinha sido repelido, e que não tardariam a chegar reforços, os portugueses aguentaram estes ataques, embora em grande dificuldade.
 
Perante a situação difícil em que se encontrava a carriagem portuguesa, D. João I avisou D. Nuno Álvares Pereira, dizendo-lhe que socorresse imediatamente aqueles portugueses. Estando cansado e não dispondo de cavalo, temeu em não conseguir chegar a tempo, uma vez que a carriagem se situava cerca de 350 metros a norte. Valeu-lhe então o comendador-mor Pêro Botelho que, estando montado, se apeou e cedeu o cavalo ao condestável. Quando D. Nuno aí chegou, acompanhado por outros homens de armas portugueses, exortou os portugueses que defendiam essa posição, dando-lhes palavras de incentivo. Em face disto, a peonagem portuguesa ganhou novo alento e resistiu enquanto que os ginetes castelhanos, ao verem que o Condestável português se apresentara com reforços, acabaram por desistir do ataque.
 
4.º A partir das 19:15 – a retirada de D. Juan I de Castela:
 
Perante a debandada geral castelhana, os homens da guarda de D. Juan I colocaram o monarca doente num cavalo e, com uma escolta de cem cavaleiros, abandonaram o campo de Aljubarrota dirigindo-se para Santarém, evitando que o monarca castelhano caísse prisioneiro.
 
Um jovem nobre português, Vasco Martins, que havia jurado matar o monarca castelhano, montou também num cavalo e conseguiu ao fim de alguns quilómetros misturar-se com os cavaleiros castelhanos que acompanhavam D. Juan. Contudo a cruz de São Jorge, que trazia na sua roupa, denunciou-o, sendo então morto pelos cavaleiros castelhanos.
 
Don Juan de Castela chegou a Santarém cerca da meia-noite, doente, exausto e desesperado.
 
Embarcou nessa mesma noite em direcção a Lisboa, onde chegou no dia seguinte, 15 de
Agosto, onde embarcou na sua frota seguindo, por mar e em segurança, até Sevilha.
 
Perante a debandada geral do exército castelhano segue-se uma curta, mas devastadora perseguição portuguesa durante o final da tarde. O escudeiro inglês Harteaelle discutiu com D. João I, pedindo cavalos para que os cavaleiros portugueses pudessem perseguir os fugitivos. O Rei recusou, pois era tarde e o inimigo ainda era muito poderoso, referindo: "Quem tudo quer tudo perde. Agradeçam a Deus que nos deu a honra e a vitória".
 
O exército castelhano precipitou-se numa fuga desorganizada. Até à manhã do dia seguinte, milhares de castelhanos em fuga foram chacinados por populares nas imediações do campo de batalha e nas aldeias vizinhas. O restante das forças franco-castelhanas saiu de Portugal uma parte passando por Santarém e depois por Badajoz, outra rumando a Norte e Leste, através da Beira.
 
No campo de batalha, as baixas portuguesas foram cerca de 1000 mortos, enquanto no exército castelhano se situaram em aproximadamente 4000 mortos e 5000 prisioneiros. Fora do campo da batalha, terão sido mortos nos dias seguintes pela população portuguesa, cerca de 5000 homens de armas castelhanos, em fuga. Não apenas pelo desfecho da Batalha, mas também pelo número de mortes verificado entre os seus nobres e homens de armas, Castela mergulhou num luto profundo até ao Natal de 1387.
 
Consequências da Batalha de Aljubarrota:
 
Embora o tratado de paz final com Castela só tenha sido assinado em 1411, em Ayllón
(Segóvia), o desenlace da batalha de Aljubarrota foi uma pedra angular na garantia da independência do reino de Portugal, tornando possível o desenvolvimento de fenómenos inovadores, na vida colectiva do País:
 
Em primeiro lugar, frustrando as pretensões do rei de Castela ao trono português, Aljubarrota evitou, muito provavelmente, que Portugal fosse absorvido para sempre pelo seu poderoso vizinho castelhano. Nos campos de Aljubarrota assegurou-se a independência de Portugal e sancionou-se a legitimidade da Segunda Dinastia, a Dinastia de Avis.
 
Em segundo lugar, sem Aljubarrota o orgulho que temos numa história largamente centenária, configurando o estado português como uma das mais vetustas e homogéneas criações políticas do espaço europeu, não seria hoje possível.
 
Em terceiro lugar, tornou-se possível o estabelecimento de um novo tratado de aliança luso-britânico, que foi assinado em Windsor em Maio de 1386. Em consequência desse Tratado, D. João I recebeu por esposa D. Filipa de Lencastre, filha do Duque de Lencastre, concretizando a união entre as casas reais portuguesa e inglesa.
 
Em quarto lugar, Portugal suspendeu, no essencial, o objectivo de expansão para norte e para leste, à custa de Castela, que tinha sido alimentado nos conflitos fernandinos. A circunstância da paz com Castela permitiu uma relativa estabilização das fronteiras terrestres de Portugal.
 
Em quinto lugar, resolvido o problema militar e de independência com Castela, o País pôde reorientar as suas prioridades. Poucos anos depois de firmada a paz definitiva com Castela iniciava-se a primeira etapa da expansão marítima, com a conquista de Ceuta em 1415.
 
Portugal iniciava a Época dos Descobrimentos Marítimos, onde conheceu algumas das páginas mais brilhantes da sua História.
 
Em conclusão, a Batalha de Aljubarrota proporcionou definitivamente a consolidação da identidade nacional, que até então se encontrava apenas em formação, e permitiu ás gerações futuras portuguesas a possibilidade de se afirmarem como nação livre e independente.
 
in : http://www.fundacao-aljubarrota.pt/?no=1055001
 

( Vou ficar á espera do filme )

publicado por Paulo Batista às 23:31
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